ENTROU PIXEL NO MEU ROLO

Pois é, a Kodak, empresa fundada por mim, faliu. Era uma morte anunciada. Mas a concretização do fato serviu para simbolizar o fim de uma era e para espalhar pela imprensa uma profusão de frases de autoajuda empresarial do tipo “é preciso não se acomodar e apostar sempre na inovação”. Não sem razão. A câmera digital, um dos algozes do filme, foi inventada pela Kodak, mas naquela época a maioria dos lucros vinha da venda de produtos químicos utilizados nos filmes e os espertos executivos que estavam no comando ficaram com medo de atentar contra o próprio patrimônio. 

Juntamente com as películas vai embora também uma série de vocábulos e expressões. Queimar o filme, bem na fita, tenho seu negativo, por exemplo, não farão sentido para as novas gerações. Letras de música terão de ser revistas para continuarem a ser apreciadas. O clássico da bossa nova, Desafinado, entre outros, terá de modificar seu mais conhecido verso para:  

Fotografei você no meu smartphone

Instagrou-se sua enorme ingratidão

É um perda pequena se compararmos com o que está acontecendo com a nossa memória. 

Quando os filmes eram vendidos nas versões 12, 24 e 36 poses, havia uma certa liturgia, uma preparação maior na hora de apertar o obturador. Cada clique tinha lá o seu propósito. Antes mesmo da revelação, era possível  lembrar-se de cada  captura. Hoje, 36 fotos é o que se obtém naquele pequeno intervalo entre sentar e o show começar. Aliás, parênteses, as pessoas não só fotografam os shows, mas também os gravam em vídeo. Deve ser para assistirem depois, no conforto do lar, o que perderam ao vivo, com qualidade da imagem tremida e o som 1.0. 

O taxímetro livre proporcionado pelas câmeras digitais faz com as pessoas registrem tudo. A cara amassada ao acordar, a maçaneta do portão, a espinha nas costas. Usa-se a foto até para aquelas tarefas que antes eram delegadas à cabeça ou a um pedaço de papel, como guardar as coordenadas do lugar onde se deixou o carro. As viagens, ocasiões nas quais mais se põe o dedo no gatilho, viraram fábricas de gigabytes que um dia, quem sabe, receberão alguma edição.

Apesar de a era digital ter levado o império que criei à ruína, eu acho esse momento interessante. De certa forma, fui eu quem começou o processo de popularização da fotografia. Essa sempre foi a minha aposta. Lancei câmeras populares e até cheguei a propor ao Graham Bell que instalasse uma delas no seu invento, para que o ato de tirar fotos se apresentasse em mais oportunidades. Vai fazer um telefonema? Por que não aproveita e bate uma chapa?

A ideia era muito avançada para a época, ele não percebeu o potencial dessa união. Esses programinhas que transformam qualquer ser com celular num verdadeiro artista gráfico também são fantásticos. Mas tem um problema. É tanta gente fazendo fotos lindas que é praticamente impossível um nome se destacar. Os últimos fotógrafos célebres são todos da era analógica, pode reparar. 

 

Enfim,  esta é a época mais próspera para a fotografia, algo que nunca imaginei.  Ótimo. A questão que me preocupa é que o cartão de memória não faz bem à memória. Assim como já não memorizamos mais os números de telefone, quando os queremos procuramos pelos nomes na agenda do celular, a profusão de fotos que tiramos nos faz esquecer os próprios objetos e momentos capturados. Como não precisamos mais nos esforçar para fixar mentalmente que o está diante dos nossos olhos, acabamos por delegar essa atividade a alguma dispositivo magnético. Nossa memória fotográfica deixou de ser residente. Ela hoje vive num HD externo lotado e bagunçado. 

E se resolvemos cavoucar os arquivos e separar de lá, entre os milhares de imagens, só os grandes momentos, já tratados com o devido filtro, e depois os postamos nas redes sociais, induzimos  os outros - como fazem as revistas - a pensarem que a nossa vida é bela, feliz e bem iluminada. 

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Inventei o filme de rolo e de quebra os potinhos plásticos para guardar aquela erva que o FHC fumou, mas não tragou.

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